sábado, 22 de maio de 2010

Mulheres afegãs: o mundo visto através da "burca".

Na revista Veja desta semana há uma reportagem sobre a condição de vida das mulheres no Afeganistão. É espantoso o que a repórter relata, especialmente para nós que vivemos em uma sociedade aberta e esclarecida. É inconcebível que em pleno avanço do terceiro milênio, ainda existam seres humanos vivenciando um atraso cultural que remonta ao obscurantismo da Idade Média, com leis e costumes cruéis e desumanos que superam o maquiavelismo do famigerado “Santo Ofício da Inquisição” , que praticou tantos crimes hediondos, contra as mulheres e supostos hereges, em nome de Deus.


Thaís Oyama, depois de visitar o país para conhecer de perto a realidade das mulheres, concluiu que nascer no Afeganistão é uma maldição, um pesado martírio para qualquer ser humano. O país é um dos cinco mais pobres do mundo e o segundo mais corrupto. A desnutrição atinge 70% da população e a expectativa de vida é de 43 anos. Segundo o relatório da Unicef, é o lugar mais ameaçador do mundo para uma criança nascer, especialmente se for do sexo feminino e pobre.
Nove anos depois da queda do regime do Talibã, as afegãs continuam esmagadas pelo pesado e cruel fundamentalismo religioso. Na rua, a maioria usa a burca, a roupa que cobre o corpo feminino dos pés à cabeça e que era um uniforme obrigatório no tempo da milícia talibã. As mulheres são privadas de qualquer regalia, inclusive do direito à escolaridade. Embora as escolas para elas não sejam mais proibidas, as estudantes representam uma ínfima parte da população e mais da metade das afegãs ainda se casa antes dos 16 anos – salvo raríssimas exceções – com homens escolhidos pela família, mesmo contra a sua vontade. No ano passado 102 colégios para meninas do país foram alvos de ataques atribuídos a membros do Talibã contrários à educação para as mulheres. Em três colégios, as alunas e suas professoras foram vítimas de um gás não identificado jogado na sala de aulas, há pouco tempo.

Sob o radicalismo medieval do Talibã, as mulheres que saíam às ruas desacompanhadas do marido ou de um parente do sexo masculino eram castigadas a chibatadas. Hoje a proibição não existe mais, porém as afegãs continuam numa espécie de cárcere privado, pois, para elas, qualquer lugar onde haja aglomeração masculina é considerado impróprio, o que inclui mercados, feiras, cinemas e parques. A segregação sexista faz com que até nos saguões dos aeroportos e nas festas de casamento exista um “setor feminino” – só no primeiro caso não formalmente delimitado. Nas bodas em que as mulheres aparecem maquiladas e com belos vestidos, quase sempre há dois salões – um para eles e outro para elas. Poucas se arriscariam a desafiar as proibições sociais.

A aplicação de castigos físicos a mulheres de “mau comportamento” continua a ser vista como um dever e um direito da família. Como revelam as pesquisas feitas com 4.700 afegãs, 87% delas já haviam siso vítimas de violência ou de abusos sexuais e psicológicos, em 82% dos casos infligidos por parentes. O Afeganistão livrou-se do jugo do Talibã, mas não conseguiu varrer o obscurantismo religioso que ele ajudou a disseminar. A interpretação radical e misógina dos princípios do Islã é a principal causa da tragédia das mulheres afegãs e da autoimolação praticada por elas, levadas pelo desespero. Em geral as suicidas têm entre 15 e 26 anos.

A média anual das tentativas de suicídio pelas afegãs, ateando fogo ao corpo, é de 80 casos. A incidência é tão alta na província de Herat, próxima a Cabul, que o principal hospital da região montou uma unidade para atender exclusivamente a casos assim. Uma das suicidas entrevistada pela reportagem da Veja disse que estava cansada de viver, casara-se aos 10 anos de idade, engravidou seis vezes (sofreu três abortos espontâneos) e era maltratada pela sogra. Levada pela fome, a sua mãe a vendera por 4.300 dólares ao homem com quem estava casada, um comerciante com idade para ser seu avô.

Nuvens escuras continuam a pairar sobre o Afeganistão, principalmente sobre a cabeça das mulheres: uma lei recentemente aprovada obriga a esposa xiita a fazer sexo com seu marido sempre que este exigir, sob pena de ser privada de sustento por ele. É o chamado “estupro marital” tornado legal para a minoria xiita. É inacreditável tal barbaridade, mas infelizmente é verdade. Mulheres vivendo sem afeto, tratadas como um objeto de uso pessoal do marido, sem direito de escolha, maltratadas e desrespeitadas em sua dignidade por homens toscos, insensíveis, dotados de uma mente primária e embrutecidos por uma cultura milenar e ultrapassada que não admite mudanças.

Que país é este, meu Deus! Até quando as mulheres afegãs vão viver encarceradas numa burca, símbolo da usurpação da liberdade que, como ser humano e como cidadãs, elas têm direito? Quem sabe, as novas gerações de mulheres, que já começam a ingressar na política, seja o começo das mudanças? Sim, se não forem assassinadas por fanáticos xiitas...
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Fonte: Revista Veja. 18 de maio de 2010

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